Comunicação à Assembleia de Grande Loja no Equinócio da Primavera

No passado 1 de Março, partiu para o Oriente Eterno um dos maiores amigos que tive: Amadeu Ferreira. Apesar de ser apenas quatro anos mais velho que eu, desde os meus dezasseis anos que o seu exemplo e linha de pensamento moldaram a minha forma de ser para sempre. Mirandês de nascença e de vida, foi Grande Homem em variadíssimos domínios, por isso, em depoimento que fiz para a sua biografia lançada pela Âncora editora no passado 5 de Março, escrevi:

"Para mim falar do Amadeu Ferreira, é sobretudo celebrar o Homem, que pode até nem ser inteligente, nem sábio, nem génio, nem profeta, mas que é antes de mais Homem de Valores, porque incorporou e pratica todos os dias os valores que fizeram com que a humanidade pulasse e avançasse no sentido certo: tudo o resto é vanidade. Obrigado Amadeu, fui um sortudo dos maiores, porque cruzei o tempo e a vida de um Profeta".

Amadeu Ferreira não era maçom, mas várias vezes nos acompanhou em ágapes de Grande Loja, porque sobrescrevia por inteiro os valores nobres da maçonaria.

Hoje, aqui, conjuntamente convosco, não posso deixar de evocar a sua memória, citando depoimento seu, para a sua única neta, que conta agora com apenas seis meses de idade, onde ele lhe deixa como único conselho para a vida, pautar-se e reger-se por Princípios e Valores fundamentais: todos nós podemos ser essa neta, e todos nós podemos ser continuadores geracionais da sua mensagem, uma verdadeira mensagem maçónica.

E Amadeu Ferreira dirige-se nestes moldes à neta:

 "O caminho que cada um tem de seguir para viver a sua vida, é um caminho que ele próprio tem de encontrar e não seguir caminhos alheios. Pode haver sugestões, pode haver dicas, pode haver tudo isso, mas cada um tem de encontrar o seu caminho. Se o não quiser fazer ou não o conseguir fazer, fica perdido. Isto é a primeira ideia que eu quero deixar. Uma ideia de confiança na pessoa, uma ideia de autoconfiança em si própria para encontrar o seu caminho, porque de facto enquanto vivermos, nunca chegamos ao fim do caminho. O caminho é uma procura constante.

Não há respostas prévias, não há soluções que as pessoas tenham. Por isso, vamos encontrando a resposta a cada momento, vamo-la adaptando, ajustando. A ideia de que há sistemas filosóficos e morais que nos dão resposta para tudo é uma ilusão. Todo o pensamento deve ser guiado por princípios e valores, mas eu não consigo ver mais do que dois ou três desses princípios fundamentais, daqueles que valem a pena. Tendo em conta a minha experiência de vida, há três princípios ou valores que considero fundamentais: a liberdade, a humanidade e a positividade.

Primeiro, um princípio de liberdade, sem o qual não temos dignidade, nem nos autonomizamos como pessoas. O princípio da liberdade constitui e alberga o fundamento da dignidade humana. Ser livre significa pensar pela sua cabeça, mas de acordo com a sua experiência, com a experiência que temos em cada momento.

Depois um segundo princípio, que é um princípio de humanidade. O importante são as pessoas. Nós temos de viver com as pessoas. Temos de respeitar as pessoas, compreendê-las, orientarmo-nos para elas, mesmo quando nos desiludem. As pessoas são o mais importante que há no mundo. Portanto, esse princípio de humanidade, é absolutamente essencial. Como costumo dizer: as pessoas são o único monumento que existe à face da terra, tudo o resto é obra.

Há um terceiro princípio essencial, a que costumo chamar princípio de positividade, isto é: vale sempre a pena fazer coisas. O mundo pode ser transformado. Temos de ter ideias no sentido de transformar o mundo. O mundo não está feito, não está acabado, temos capacidade de intervir nele e portanto, cada um de nós pode intervir nesse mundo e pode ajudar a transformá-lo, porque desde o momento em que nascemos, o mundo já não é o mesmo, só pelo simples facto de termos nascido. Isso traz-nos uma responsabilidade muito grande. A ideia de que não vale a pena fazer nada, de que vai tudo sempre a bater ao mesmo, é uma ideia falsa.

Este princípio de positividade, de que vale a pena interagir como cidadãos de corpo inteiro, não ser indiferente, é inquestionável.

Estes princípios de liberdade, de humanidade e de positividade, são irrenunciáveis, absolutamente essenciais e sem os quais, a vida não faz sentido. Sem os quais a dignidade humana não tem fundamento".

Também eu meus queridos irmãos, me tenho esforçado para incutir estes princípios fundamentais na ação dos maçons, por isso referi na minha prancha de tomada de posse como G:.M:: "...no nosso tempo, a liberdade, passou de mera ordem metafísica, para um plano, em que deve afirma-se como a primeira exigência do maçom moderno". Já em relação ao princípio de Humanidade, referi: "Não nascemos maçons, tornamo-nos maçons. E detrás disto há a ideia de que somos os criadores da nossa própria realidade, seja fantástica ou seja a realidade que realiza, por isso cada maçom, no seio da comunidade fraterna de irmãos, é responsável pela sua própria humanização, porque esta não lhe é dada originalmente, ela é fruto de uma luta que edifica a construção permanente: a criação, a luz, a retidão, a separação permanente entre a luz e as trevas, uma caminhada humanística que nos deve constantemente aproximar do próximo".

Relativamente ao princípio de Positividade, fazer todos os dias pequenas coisas para transformar o mundo, foi sempre o grande desígnio da maçonaria universal, e com perseverança, muita coisa temos conseguido, mas temos que continuar.

E continua Amadeu Ferreira, a falar assim para a neta:

"Eu faço derivar todo o comportamento humano a partir destes princípios, incluindo o meu. Se falha algum deles, ficamos mancos, desorientamo-nos, perdemo-nos. São princípios que apontam para um caminho que não é linear, mas difícil. É um caminho que, em relação a cada um deles, nós nos enganamos, temos de andar para trás e para a frente, para ajustar agulhas, em relação aos quais muitas vezes não sabemos que rumo seguir.

Temos que o procurar constantemente. Com a certeza de que todos esses princípios comportam riscos elevadíssimos. Aliás, viver, é uma coisa maravilhosa, mas é um risco. Onde não há risco não há ganho. Por isso vamos encontrar pessoas que apesar de tudo são uns escroques que nos fazem mal, mas não podemos desistir da humanidade, porque se nós perdermos a nossa própria humanidade, coisificamo-nos e portanto, perdemos também essa dignidade.

Vamos encontrar um Planeta Terra mau, pessoas maldosas, que nos fazem mal, inclusivamente, pessoas que nos querem mal. Encontramos guerras desde o início da humanidade, holocaustos, mas aplicar o princípio da positividade à humanidade é possível, pois ela pode ser transformada. Já fomos selvagens, já fomos canibais. Houve alturas em que saíamos de umas guerras para as outras. Só vivíamos de sangue, em que a profissão mais nobre era a profissão de guerreiro e a profissão dos nobres era a guerra. Nós já vivemos esse tempo. Hoje não é assim, mas o que vemos hoje pelo mundo fora? Gente a matar-se, gente que não quer saber uns dos outros.

Apesar de tudo, este princípio da humanidade tem de ser inquestionável e não desistir. O princípio da não desistência perante a capacidade que temos de melhorar as coisas, nem que seja um grãozinho. E não podemos ter a pretensão de ver o que melhoramos, muitas vezes não vemos. A nossa passagem é como a marca de água nas notas de banco, não se vê, mas está lá. E, quando se trata de um momento como nas notas, de marca de água, de ver, de distinguir o verdadeiro do falso, isso ajuda.

Olhamos para a vida, para a terra, vemos todos os grãozinhos de poeira que estão deitados? Não vemos, mas estão lá. Fazem montanhas, quando se multiplicam por milhões. E os atos humanos também são assim. Quando se multiplicam por milhões, os atos bons produzem resultados. Às vezes há retrocessos, porque a história não caminha sempre para a frente e nós temos de ter capacidade para aguentar esses recuos. Mas esse princípio de facto positivo, de capacidade de transformação, de confiança em nós é absolutamente essencial.

Perante este princípio, não há lugar a desistência, não há lugar a fugas, porque às vezes, apetece-nos fugir, mas temos de enfrentar. Este princípio de humanidade conjugado com a nossa liberdade, que nos ajuda a encontrar o nosso caminho e não o dos outros.

Diria à minha neta: sê tu mesma dentro deste caminho, livre com intervenção de cidadã, com intervenção positiva, no sentido de que o mundo é transformável. O mundo onde nasceste não está totalmente feito, sobrou um bocadinho para tu fazeres. Não há grandes coisas, grandes feitos, isso não existe. Todas as coisas que nós fazemos são pequenas coisas. E as únicas grandes coisas que há são as pequenas coisas. Um sorriso, um amigo que se faz, uma mão que se dá.
E nunca em circunstância alguma, fazermos aquilo que nos envergonha a nós próprios e nos obriga a olhar para o chão. Temos de olhar para cima. Espinha direita! Isto é a coisa mais simples que existe e mais complicada ao mesmo tempo.

Eu faria derivar todo o potencial destes princípios e desta postura. Tudo o que nós temos na vida é uma conquista. Cada dia é uma conquista, cada instante é uma conquista e isto conduz-nos a um princípio de humildade. Humildade no sentido de liberdade, de variação, de não chegar a conclusões, de positividade, de transformabilidade das coisas".

E reparem bem meus irmãos, também este princípio de humildade deve estar bem presente no maçom, porque quem se humilha será sempre exaltado.

E termina assim Amadeu Ferreira a carta à sua neta:

"Estou convencido de que a minha neta, tal como a humanidade, irá encontrando o seu caminho, e muito me orgulharei, se for uma pessoa de princípios e valores, como estes que referi, na base da sua dignidade, da sua vida e da sua felicidade, porque felicidade em geral não existe. O que há são momentos felizes que nós construímos. A felicidade é uma construção nossa e nós construímos esses momentos de felicidade, fruto do momento que vivemos. A felicidade é equilíbrio com nós próprios, nada mais que isso. Não é uma coisa do outro mundo, não é o céu na terra. Isso do céu é uma chatice.
Fora disto, que mais eu lhe poderia querer dizer? Mais nada. Isto dar-lhe-á alegria, que é uma coisa fantástica, permitir-lhe-á encontrar o sorriso certo e mais bonito em cada momento, que é a coisa que mais nos pode fazer bem".

E para terminar, também eu quero vincar a importância dos sorrisos, por isso referi na prancha do último solstício: "já ouvi dizer que não se riem os animais, talvez, sarcasticamente as hienas, e nós queremos tanto aprender o valor do riso fraterno, por isso pediremos sempre muito pouco: apenas ser felizes, e talvez assim façamos o mundo mais feliz, e por contágio, sejamos também nós todos mais felizes".

E com esta singela, mas sentida homenagem a Amadeu Ferreira, Homem de Princípios e Valores, foi uma mensagem forte que hoje vos quis deixar, e dela imbuídos, continuaremos o nosso caminho, fazendo o mundo mais feliz e, por contágio, sermos todos mais felizes, cumprindo os Princípios e Valores, para consolidar a edificação da nossa Ordem, a bem da Humanidade,

À Glória do Grande Arquiteto do Universo.

Lisboa, 21 de Março 6015


Júlio Meirinhos
Grão Mestre

 

Amadeu Ferreira (1950-2015), personalidade multifacetada: professor universitário, jurista impulsionador da criação dos estudos de Valores Mobiliários na Universidade e co-redator do Código de "Valores Mobiliários", 15 anos vice-presidente da CMVM, escritor, poeta, romancista, contista, dramaturgo, ficcionista, ensaísta, tradutor, assumindo o seu nome civil ou vários pseudónimos, entre eles Fracisco Niebro, Marcus Miranda e Fonso Roixo. Génio, inteligência, cultura, simpatia, bondade, e sobretudo muita simplicidade, são qualidades que coloca ao serviço das causas que abraça, entre elas a cultura e a literatura mirandesas, entregando-se a tarefas hercúleas que tornam Amadeu Ferreira a figura cimeira da literatura mirandesa. Para além da sua vastíssima obra literária em português e mirandês, publicou traduções para mirandês de Camões – poesia lírica e Os Lusíadas, de grande parte da poesia de Fernando Pessoa, nomeadamente a Mensagem, da maior parte dos poetas portugueses do século XX, mas também dos latinos Horácio, Catulo e Virgílio, e ainda de "Os Quatro Evangelhos", a partir da Vulgata latina de São Jerónimo, assim como "O Cântico dos Cânticos - O Mais Alto Cantar de Salomão". A respeito das muitas traduções que realizou para mirandês, referiu à imprensa: "É preocupação minha que os principais poetas da humanidade também falem em mirandês". Muitos dos seus poemas já se encontram traduzidos em várias línguas. Comendador da Ordem do Mérito da República Portuguesa desde 2004, a sua biografia "O Fio das Lembranças – Biografia de Amadeu Ferreira", da autoria de Teresa Martins Marques, publicou-se na Âncora Editora em Março 2015.

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